Minha Vitrine Virtual
Quando, no século passado, o existencialista Jean-Paul Sartre disse “Só através dos olhos dos outros posso ter acesso à minha própria essência, ainda que temporária” parecia que já imaginava o empenho das pessoas em construir uma identidade virtual atraente para quem acessa nossos múltiplos perfis nas redes sociais.
Não é de hoje que se criou a necessidade de trabalharmos nosso endomarketing de forma a nos vendermos como pessoas interessantes ou relevantes para o público que almejamos atingir. Na era da internet e das redes sociais temos pessoas que nos adicionam por nos conhecerem pessoalmente e há muitos que nos adicionam pelo modo como nos enxergam e nos avaliam, através de nossa vitrine virtual.
Segundo Danah Boyd, referência mundial em comportamento nas redes sociais, que palestrou semana passada no evento Digital Age 2.0 em São Paulo, a aproximação de pessoas através das redes sociais acontece devido a identificação de afinidades que são interpretadas através do nosso perfil em redes sociais. Claro que nem todos montam seu perfil de forma condizente com a nossa personalidade e gostos, pois é comum as pessoas estruturarem seu perfil, sua vitrine virtual, a partir do como Querem Parecer – como gostariam de ser.
Ainda ressaltado pela Danah Boyd, temos anseio em conquistar uma platéia nas redes sociais e os nossos amigos juntamente com as demais pessoas que nos adicionam são a nossa platéia. Carentes de atenção e de aceitação que somos, construímos nossa identidade virtual da forma mais atraente possível.
O Orkut já foi, e para algumas pessoas ainda é, uma vitrine de beleza e popularidade onde, se temos muitos scraps de garotas gatas nossa moral pode aumentar perante nossos amigos, e se temos muitos amigos podem pré-supor que somos populares e, para ser popular no mínimo temos que ser interessantes. Quanto mais interessante parecermos, mais pessoas desejarão nos adicionar e isso é o alimento para o ego que precisamos para completar nosso anseio pela aceitação alheia.
Imaginei uma mecânica semi-inconsciente que algumas pessoas (de determinada faixa de idade 14–21 predominante no Orkut) podem utilizar para analisar vitrines virtuais e selecionar novos amigos/ou possíveis xavecos:
1) A pessoa é bonita
2) É comprometida? Tem algo de interessante a dizer? Onde mora? Qual Signo?
3) Seus interesses são semelhantes com os meus, ou demonstra através de suas comunidades alguns atributos e gostos que valorizo?
4) Os aplicativos de Orkut abriram uma nova possibilidade de pré-leitura de vitrines virtuais. Buddy Poke (11 milhões de usuários) Com quem mais interage e de que forma? Parece que anda flertando com alguém? Vou, Não Vou! (um dos 3 mais populares aplicativos de Orkut) Qual o perfil das pessoas que ela acha bonita, há muitas pessoas que consideram ela atraente? Minha músicas (um dos 3 mais populares aplicativos de Orkut) > O gosto musical da pessoa é semelhante ao meu?
5) Quem deixa mensagem para ela? Que tipo de mensagens?
6) Mais fotos da pessoa para dar confiabilidade à beleza inicialmente conferida na foto principal do perfil.
7) A pessoa tem muitos amigos? É popular? Seus amigos parecem pessoas legais? Têm muitas pessoas do sexo oposto no perfil dela?
Mas o Orkut além de ser analisado como uma vitrine para avaliar pessoas interessantes, também é utilizado por alguns RH para avaliar perfis de candidatos. As vezes conta a favor e as vezes não…
Todas as redes sociais de alguma forma são vitrines de nossa identidade virtual, enquanto o Orkut pode ser considerado uma vitrine mais pessoal, há outras vitrines, mais segmentadas, como o Linkedin que possui um valor mais profissional > quão bom é nosso currículo, em que empresas já trabalhamos, com que cargo, quem nos recomenda e porque recomenda?
De alguma forma a internet colaborativa nos permite estar presentes em diversos ambientes sociais, e portanto temos que ser bem cuidadosos em estruturar nossas vitrines virtuais onde, através delas o mundo nos vê e nos avalia como pessoas relevantes, bonitas, importantes ou não. O fato é que algo somos, pois de alguma forma alguém nos enxerga e nos avalia…dia-a-dia, minuto a minuto.














